quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Alvorada Sonora

Por Pádua Sousa
Agosto/2017

A manhã ainda não viu o sol chegar, e já se ouve o som da bandinha que desce a rua em direção ao Largo da Igreja Matriz: é a alvorada. Esse costume conheço-o desde que me entendo como gente. Na “Festa de Agosto” as manhãs são sonoras, não só pelo repicar do sino que chama para missa e pontua no seu badalar a primeira, a segunda e a terceira chamada, mas, também, no som dos dobrados que a bandinha espalha na manhã nascente.
Ao meio dia, no lume ardente, repete-se o cortejo e a musicalidade. A cidade vem às portas para ver a banda passar. A criançada engorda a séquito musical e o calor não é capaz de interromper aquela marcha. Na Hora do Ângelus, o espetáculo se reproduz, agora, a bandinha não voltará em seguida, animará a noite e a quermesse. Só quando o leilão terminar, ela descerá os degraus da igreja e subirá a rua, encerrando mais uma noite do novenário do Glorioso São Bernardo. 
No Brasil, as Bandas Marciais remontam ao meado do Século XVIII e eram compostas por músicos escravos. Com a chegada da Corte Portuguesa 1808, que trouxe a Banda da Brigada Real, elas se tornaram conhecidas. Mas foi no Segundo Reinado, que essa formação musical se popularizou.  “As festas e cerimônias imperiais tinham nelas o elemento sonoro que consolidava a construção de uma nacionalidade apoiada na figura do Imperador”.
A presença dessas bandas nesses eventos popularizaram-na e fizeram com que se reproduzissem por todo o Império. Embora tenham tido seu apogeu no Século XX, iniciativa governamentais e de instituições sociais tentam, através da música, resgatar jovens em situação de risco. Essas ações são louváveis por representar um instrumento a mais na libertação da nossa juventude das garras das drogas e do trafico.
Voltando à nossa bandinha, constatei, com pesar, que na sua composição, formada quase na totalidade por idosos, os únicos bernardenses era Laudimar com seus os velhos pratos e Sabido que percutia um tambor sem muita convicção do que fazia. Perguntei-me: e Chico Vaz, e o maestro Bezio, e Assis, e Zé Coelho, e Zeca Marco, e Bolo e os Perpétuos onde estão? Veio-me à lembrança um episódio que a história registra como o “Combate dos Músicos”.
Na Guerra do Paraguai encontraram-se os componentes da Banda Militar da 42ª Companhia dos Voluntários da Pátria com a Banda Militar do 40º Corpo do Exercito Paraguaio denominada “Guardiã de Lopez”. Na refrega morreram todos os músicos do Ditador. Dos Voluntários da Pátria, só seis sobreviveram, mas o nosso Maestro Felipe Neri Barcelos sucumbiu na peleja.
Nossos músicos bernardenses perderam a luta contra o tempo, como todos nós perderemos, mas a história se constrói com gerações. Precisamos repor nossos músicos. Tenho certeza, que entre os nossos jovens que estão hoje perambulam pelas ruas expostos aos perigos das drogas e dos traficantes existem muitos músicos. Se não resgatá-los agora estarão perdidos para sempre, e não demorará muito não haverá mais alvorada sonora no Largo da Matriz de São Bernardo, no mês de Agosto.

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