quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Provisão de união das freguesias de São Bernardo do Parnaíba e Brejo dos Anapurús

Dom Joaquim Ferreira de Carvalho, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Bispo do Maranhão, e do Conselho de Sua Majestade.

Fazemos saber que por sua petição nos requereu o revdo. vigário de São Bernardo do Parnaíba o padre Domingos Pereira da Silva, que tendo representado ao Ilmo. e Exmo. Governador e Capitão-General desta Capitania do Maranhão a ruína da sua igreja matriz, a impossibilidade de se poder aí satisfazer as obrigações de pároco por ser o sítio alagadiço em muitos tempos do ano, nem daí se poderem administrar os sacramentos, razão porque havia anos que se estava satisfazendo as obrigações paroquiais na igreja de Nossa Senhora da Conceição do Brejo dos Anapurús, fora o mesmo Ilmo. e Exmo. Capitão-General servido designar-lhe o sítio Repartição para aí se edificar a igreja matriz, e que representando novamente ao mesmo Sr. o quanto era pesada aos seus paroquianos a edificação de uma nova igreja matriz no sítio designado da Repartição, por serem as despesas muito avultadas, o que se podia evitar, unindo a freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Brejo dos Anapurús à de São Bernardo, por esta ficam bem no centro da freguesia de São Bernardo e poder daí administrar os sacramentos com mais prontidão para qualquer dos lados e com mais utilidade das almas, e ser esta freguesia do Brejo muito pequena e muito pobre, porque se compunha toda ou quase toda de índios, pedira a S. Exa. o consentimento para nos requerer provisão da união em razão de serem estes benefícios do padroado real, visto o mesmo Sr. estar aqui exercendo o lugar-tenente de Sua Majestade, e que S. Exa. lhe deferira, que todas as justiças, que lhe eram subordinadas prestassem uma pronta e exata execução a todas as ordens, que nós lhe mandássemos no tocante a este mesmo requerimento, como constava do requerimento e despacho junto, e por fim de sua petição nos pedia que, atendendo às justas causas que alegava, houvéssemos de fazer a união para a utilidade espiritual daqueles povos e para o bem do Estado; o que sendo por nós visto e examinado, procedendo a informes sobre cada um dos artigos do seu requerimento, achamos que a situação, em que estava a igreja matriz de São Bernardo, era incapaz, e isto por algumas razões: 1º, por ter sido edificada quase em os fins da demarcação da freguesia, ficando muito dificultosa aos fregueses a frequência da sua igreja e aos párocos muito trabalhosa a administração dos sacramentos; 2ª, por ser edificada em um sítio tão alagadiço que havia tempos em que só nadando se podia passar à igreja e assim mesmo com perigo de vida, tendo acontecido fatos bem prejudiciais ao bem espiritual e temporal dos fieis daquela paróquia; 3ª, porque sendo a situação da igreja tão incomoda a quase todos os moradores tinham desamparado aquele terreno e tinham ido edificar as suas habitações em outros terrenos mais cômodos para sua subsistência e mais próximos à igreja da Senhora da Conceição, onde recebiam os sacramentos e satisfaziam as obrigações de católicos. Achamos ainda que o revdo. pároco de São Bernardo satisfazia as suas obrigações paroquiais na Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Brejo dos Anapurús, vindo esta igreja a ser matriz de duas paróquias, seguindo-se daqui algumas contestações entre os dois párocos sobre a preferência de jurisdição e emolumentos e outras mais coisas que concorriam para desunião e partidos. Mas fomos informados que a freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Brejo é tão pobre que será impossível conservar com decência a sua igreja por ser composta toda ou quase toda de índios que mal trabalham para a sua subsistência, e que a razão de se conservar com alguma decência era porque os fregueses de São Bernardo concorriam com as suas esmolas para as festas, que eram próprias da sua paróquia e ainda para as que eram da igreja do Brejo e com elas ornavam esta igreja; finalmente fomos informados que era de utilidade espiritual e ainda temporal o ficar unida a igreja e freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Brejo à de São Bernardo; o que sendo tudo por nós examinado, vendo que esta união era útil não por interesse do pároco de São Bernardo, mas sim por utilidade e necessidade pública; e usando do direito que nos é concedido na forma do Decreto do Concílio II Mecliniense tit. 17 cap. 3, e do Concílio Lateranense sess. 9 e do Concílio Tridentino sess. 21, cap. 5 e das decretais dos SS. Pontífices, unimos a freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Brejo dos Anapurús à de São Bernardo do Parnaíba, ficando a igreja do Brejo servindo de matriz à de São Bernardo enquanto Sua Majestade não mandar o contrário denominando-se daqui em diante a matriz com o título de Nossa Senhora da Conceição e São Bernardo do Parnaíba, e mandamos que todos os súditos da freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Brejo reconheçam por seu pároco ao revdo. vigário de São Bernardo e lhe obedeçam em tudo o que for do seu ofício pastoral, conservando em tudo os usos e costumes, ficando daqui em diante aquela matriz chamada – a igreja e freguesia de São Bernardo do Parnaíba. E para que conste mandamos passar a presente que será registrada em o registro competente, e o revdo. vigário da freguesia de São Bernardo do Paranaíba lerá esta à estação da missa conventual aos seus fregueses em três domingos sucessivos e a copiará em o livro dos capítulos das visitas e remeterá esta à nossa Câmara Eclesiástica com a certidão de que assim o cumpriu. Dada e passada em o nosso Paço Episcopal do Maranhão debaixo do nosso sinal e selo das nossas armas, aos 7 de setembro de 1799 anos. E eu o beneficiado Manuel Antônio Barros, secretário, a escrevi. – Joaquim, bispo do Maranhão.
(Estava o selo das armas episcopais)

Provisão pela qual V. Exa. é servido unir a freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Brejo dos Anapurús à de São Bernardo do Parnaíba, ficando a igreja do Brejo servindo de matriz à de São Bernardo, denominando-se a matriz com o título de – Nossa Senhora da Conceição e São Bernardo do Parnaíba: - na forma dela, etc. Para V. Exa. ver.

Registrada na Câmara Eclesiástica deste fl. 44v. até fl. 46 do livro atual de registros. Maranhão, 8 de setembro de 1799 – Fonseca.

Nota: “Aos 10 dias do mês de novembro do ano de 1799, nesta paroquial igreja de Nossa Senhora da Conceição do Brejo dos Anapurús, à estação da missa conventual, empossei o muito revdo. vigário colado Domingos Pereira da Silva deste mesma igreja, passando a ser a – Matriz de Nossa Senhora da Conceição e São Bernardo do Parnaíba – por provisão de união obtida do Exmo. Sr. Bispo a qual foi lida em três domingos sucessivos. Passo o referido na verdade. Arraial de Nossa Senhora da Conceição e São Bernardo do Parnaíba aos 24 dias do mês de novembro do ano de 1799. E eu, Francisco Gonçalves Meireles, escrivão por nomeação, os escrevi. – Lino Antônio Pereira de Sampaio.


FONTE: MARQUES, César Augusto. Dicionário histórico-geográfico da Província do Maranhão. Rio de Janeiro: Cia Editora Fon-Fon e Seleta, 1970. p. 579-580.


terça-feira, 19 de setembro de 2017

Gota de mel: ensinamentos de São Bernardo


“Os que estais perdidos, respirai: Jesus vem buscar e salvar o que tinha perecido. Os que estais doentes, convalescei: vem Cristo, que sara os contritos de coração com o unguento da sua misericórdia. Exultai todos os que aspirais a coisas grandes: o Filho de Deus desce a vós para vos fazer herdeiros do seu reino. Por isso imploro: cura-me, Senhor, e ficarei curado; salva-me Senhor e serei salvo; glorifica-me e serei glorificado”.

(Dos Sermões de Natal, na vigília do Natal, p. 13)


terça-feira, 12 de setembro de 2017

O Diário da Matriz parabeniza lançamento do livro!

"O DIÁRIO DA MATRIZ" vem agradecer em nome da história de São Bernardo ao nosso jovem conterrâneo Felipe Costa Silva, nosso futuro Pároco, pela obra que acaba de publicar MATRIZ DE SÃO BERNARDO DE CAPELA A SANTUARIO (Mais que um livro, uma historia).
Nem sempre estamos onde gostaríamos de estar, porque o tempo nem sempre obedece nossos ditames e algumas vezes se comporta como nosso algoz.
Digo tudo isso para lamentar minha ausência ao lançamento do livro “MATRIZ DE SÃO BERNARDO DE CAPELA A SANTUÁRIO” desse nosso jovem e brilhante conterrâneo FELIPE COSTA SILVA.
Todos nós sabemos da importância que teve e tem a Igreja de São Bernardo na construção da história de nossa gente. Faltava-nos um documento que possibilitasse a todos imergir nesse universo histórico e entender, na linha do tempo, como esse edifício foi se tornando realidade.
Esse foi o desafio dessa obra que urdida na historiografia, não se torna uma leitura fadigosa, mas, ao contrário, a sua leveza prende-nos nessa agradável viagem através do tempo.
Mas a obra tem pretensões maiores, e ousa ir além. O que poderia sugerir, pelo titulo, tratar-se de estudo de cunho eclesiástico, logo deixa transparecer a abrangência dos seus objetivos, tomando direção que ultrapassa os limites do religioso para se imiscuir numa viagem que abrange saberes antropológicos, da sociologia e da história.
Na busca da origem dos Anapurus, habitantes primeiro do Baixo Parnaíba, o Autor, numa pesquisa bibliográfica rica, mostra de maneira simples e esquematizada as correntes migratórias que levaram a construção dessas etnias. Essa ousada atitude possibilitará que outros estudos sigam nessa direção, ao despertar na nossa juventude acadêmica o interesse pela pesquisa.
O Autor, embora membro da Igreja, não se foge à polêmica das lendas e dos mitos que povoam a historia dos filhos de Loyola, o Santo Espanhol, da Companhia de Jesus, na sua missão de catequizar os silvícolas. Analisa-as à luz da sua importância na concepção e consolidação do Cristianismo nas terras da América.
O estudo das fontes documentais da Igreja e dos documentos públicos constitui-se o ponto forte da obra, na sua determinação de traçar a trajetória temporal da Igreja de São Bernardo, dos seus primórdios como construção precária – edifício e palha e taipa – até o Santuário Majestoso que o suor do povo bernardense e a determinação do Cônego Nestor de Carvalho Cunha legaram à posteridade. 
Nessa busca documental, mostra-nos, o Autor, o funcionamento da igreja como instituição ligada ao Estado. A sua importância na formação dos núcleos habitacionais e na construção de um sistema de governança e administração dessas comunas. A Igreja Católica, pode se afirmar, que na sua determinação de difundir a fé, teve participação decisiva na construção dessa grande Nação.
Mais se poderia dizer dessa obra que, como todo grande livro, não se mede pelo numero de páginas, mas pelo conteúdo que alberga. A dificuldade que o Autor encontrou, pela pobre bibliografia relativa a nossa Cidade, outros não a terão na mesma magnitude: MATRIZ DE SÃO BERNARDO DE CAPELA A SANTUÁRIO” representa a pedra fundamental para tantos quantos se propuserem construir sobre ela um monumento ao passado e ao futuro de nossa terra.
Esse livro estava fazendo falta. Ainda bem que chegou. Obrigado Felipe e parabéns pelo feito.

PÁDUA SOUSA

domingo, 10 de setembro de 2017

Palestra de lançamento do livro “Matriz de São Bernardo: de capela a santuário”

São Bernardo, 09 de setembro de 2017
Praça Vale de Luz

Senhoras e senhores, boa noite!

         Agradeço a presença de todos. De maneira especial às autoridades religiosas e civis que, estando aqui, muito me honram. Obrigado!
         Com muita satisfação, neste momento inicio a apresentação oficial do meu primeiro livro “Matriz de São Bernardo: de capela a santuário”. Como preâmbulo das considerações que pretendo fazer nesta noite memorável, trago à lembrança o soneto “Minha terra”, do saudoso conterrâneo e ilustre poeta, Bernardo Coelho de Almeida:

“Se estou longe de ti, pesa-me o fardo
Imenso da saudade sobre mim:
(No mapa nem puseram São Bernardo....
E eu mais te quero, obscuramente assim!)

Vejo-te sob um céu de luz galhardo,
O verde vale, o solo carmesim,
A rua - paralela ao rio pardo -
Onde o sol nasce em baixo e morre ao fim...

O mundo que me fez abandonar-te,
Me faz te procurar por toda parte,
Nos sonhos, um a um, que ele desfaz!

E agora é tarde para revivê-los,
No pranto de mamãe, nos seus cabelos,
Na mesa onde nem todos sentam mais!”

         É muito significativo que nesta noite estejamos reunidos aqui, nesta praça, neste lugar. Talvez, não se tenha plena consciência, mas ao nos reunirmos aqui, nos reunimos não somente com o presente, mas também com o passado, que reclama o direito de se fazer presente conosco porque vive em cada um de nós, filhos deste chão abençoado pelo monge de Clairvaux!
         Bernardo Almeida, em seu soneto, expressa o genuíno espírito de um bernardense, que mesmo longe sabe guardar no coração a grata lembrança de sua terra, desejando-a só pra si, como em um conto de fadas.
Nos encontros e desencontros da vida, é aqui, neste chão, que nós bernardenses, verdadeiramente nos encontramos, ou pelo menos, é aqui que encontramos a bússola que orienta nosso caminho, a bússola do começo e recomeço.
         E para não nos perdermos ao longo da jornada da existência, é preciso que nos apropriemos das nossas raízes. Não pode se apropriar do mundo quem ainda não se apropriou de suas raízes, de seu chão, de sua história, da memória de sua gente. Esta é uma serena convicção que trago no mais íntimo de mim.

         Nesta palestra de lançamento, darei enfoque em três pontos que julgo pertinentes:
1-     O nascimento da ideia do livro
2-     A redação e o projeto da trilogia
3-     O conteúdo

 1 - O nascimento da ideia do livro

         Escrever o livro “Matriz de São Bernardo: de capela a santuário”, o primeiro do ousado projeto de uma trilogia, é uma forma de colaborar com a preservação da memória da nossa cidade, nossa paróquia, além de recordar os elementos basilares que sustentam nossa cultura, nossa fé cristã, nossos costumes e festas.
         Toda pesquisa nasce de uma sadia curiosidade. O que seria da humanidade se não existissem os espíritos curiosos. A curiosidade sadia é capaz de produzir o extraordinário, ficam como exemplo as grandes descobertas da ciência e da tecnologia, e os constantes progressos da pesquisa histórica.
         Pela curiosidade de entender as razões pelas quais o Cônego Nestor foi assassinado em agosto de 1970, iniciei um longo caminho de leitura, coleta de dados, partilha de experiências e vivências, que culmina, agora, com o lançamento desse livro.
         Tudo começou em janeiro de 2011, no escritório de Monsenhor Maurício Laurent, quando ele pôs em minhas mãos a volumosa obra “História Eclesiástica do Maranhão”, de Dom Filipe Condurú Pacheco, onde encontrei a trilha por onde eu deveria dar os primeiros passos para depois devassar, por conta própria, um novo caminho.
         À medida que ia lendo Condurú Pacheco fui sendo possuído por um enorme desejo de imitá-lo, escrevendo também eu uma suposta “história eclesiástica bernardense”. Essa foi, aliás, minha ideia original, imatura por sinal, que posteriormente foi purificada e redirecionada.
         Apropriei-me de outras fontes muito importantes (César Marques, Cláudio Melo, Mário Meireles, Aderson Lago etc.) e gradativamente fui cotejando inúmeras informações sobre a paróquia de São Bernardo, e inclusive sobre a própria origem da cidade.
Desse cotejamento, fui construindo um vasto leque de dados históricos, que me permitiu ampliar o horizonte da pesquisa para além da figura do Cônego Nestor, que era o objeto inicial das investigações.
Quando me dei conta, eu já estava em alto mar, cônscio, porém, que um pouco desprotegido, por não ter, com propriedade, domínio do método da pesquisa histórica, o que faz com que eu me entenda um amador, ou como disse um colega padre e historiador, um ensaísta. Mas um ensaísta comprometido com a verdade e que preza muito pela honestidade intelectual.

2 - A redação e o projeto da trilogia

         De posse de inúmeras fontes, comecei, em 2012, a esboçar o esqueleto daquilo que seria um livro. Além de definir o que deveria escrever, redigi o núcleo central de alguns capítulos. Ali ficou claro, dada a vastidão da pesquisa, que eu deveria dividir a publicação em pelo menos três. Foi assim que surgiu a ideia da trilogia, nada, porém estava muito claro.
Foram seis anos de pesquisa temperados com as obrigações próprias de um seminarista, seja no âmbito acadêmico seja no pastoral. Em alguns momentos tive que deixar este trabalho em segundo plano, sem nunca perder, no entanto, o elã da pesquisa.
Uma das primeiras contribuições dessa pesquisa consistiu na recordação e divulgação da data do bicentenário da Matriz, cujas celebrações oficias ocorreram no ano passado, no contexto do Ano Jubilar da Misericórdia.
Na ocasião, escrevi um pequeno artigo explicando o contexto histórico dos 200 anos da Matriz, apesar da Paróquia São Bernardo possuir, historicamente, 276 anos de existência institucional. Esse dado está seguramente fundamentado no livro.
Considerando o fato de eu estar impossibilitado de fazer a publicação do livro no ano passado, em razão da minha transferência para o Ceará, criei o blog Freguesia de São Bernardo do Parnaíba, ou simplesmente Freguesia SB, a fim de homenagear a Matriz Bicentenária de São Bernardo, e ao mesmo tempo chamar atenção para a necessidade de mais pesquisas e produção sobre a história de São Bernardo.
Paralelo ao trabalho do blog, retomei a redação do livro, levando a cabo a conclusão dos capítulos e definindo com clareza o conteúdo dos três volumes:
O 1º, que ora apresento, possibilita uma visão histórica geral sobre a origem de São Bernardo e da Paróquia São Bernardo, anteriormente chamada Freguesia de São Bernardo do Parnaíba.
O 2º, cuja redação já está em andamento, e está previsto para ser publicado em agosto do ano vindouro, será sobre o Cônego Nestor, com especial ênfase sobre o contexto obscuro de seu assassinato, dúvida de raiz que motivou todas as minhas pesquisas.
O 3º, cuja previsão de lançamento é para agosto de 2019, abordará a devoção a São Bernardo de Claraval e seus desdobramentos na construção do tecido social bernardense, considerando, sobretudo o festejo e as manifestações populares de piedade e devoção.
A redação deste primeiro volume eu a concluí em fevereiro deste ano, tendo encaminhado o escrito, posteriormente, para a apreciação de alguns amigos.
Fiz convite especial ao ilustre Elmar Carvalho para que ele fizesse o prefácio. Muito cordialmente, aceitou tal empresa, e o fez com esmero e objetividade.
Minha relação com Elmar começou via internet, quando lhe solicitei uma cópia da obra “Bernardo de Carvalho”, do grande historiador Pe. Cláudio Melo. Hoje, nos encontramos pela primeira vez, na ocasião desse lançamento, razão pela qual me sinto mui honrado.
Também devo recordar gratamente, meu amigo historiador, Pe. Edilberto Cavalcante, doutor e professor de história na UECE, e membro do clero de Quixadá, pelas preciosas dicas para a redação final do texto.
Devo recordar ainda, Pe. João Rezende, do clero da Arquidiocese de São Luís, que me iluminou na escolha do título do vertente livro.
Depois de seguidos todos os tramites de publicação, junto à Editora Imprece de Fortaleza, tenho a grata satisfação de colocar em vossas mãos o primeiro fruto de uma ousada semeadura. “Matriz de São Bernardo: de capela a santuário”, é o meu presente, ainda que tardio, à Paróquia Santuário São Bernardo pelos seus 200 anos de Matriz.

3 - O conteúdo

      Durante a redação dos sete capítulos desse primeiro volume, resolvi iniciar resgatando a narrativa legendária sobre a origem de São Bernardo, nas suas mais diversas variantes. De fato, apesar de ter um caráter legendário, essas narrativas portam consigo algo de verdadeiro e expressam momentos fundamentais da história da Matriz.
      Na antiguidade clássica, quando os gregos resolveram romper com a explicação mítica do mundo, deram origem à Filosofia. No entanto, sabe-se que o mito é portador de uma verdade. Não se trata de uma mentira, mas de uma forma de explicar e dizer a multifacetada realidade da existência.
     De igual maneira, ao iniciar a obra pelas narrativas legendárias, quis valorizá-las e mostrar que a partir delas podemos trilhar o caminho da história, dos fatos e acontecimentos. Quis trazer em cena muitos personagens que estão nas origens da nossa cidade: os padres jesuítas, os índios Anapurús, Bernardo de Carvalho Aguiar, Dom Manuel da Cruz e Padre Antônio Vidal de Almeida, o primeiro vigário encomendado de São Bernardo.
         A história de São Bernardo foi construída ao redor da Matriz, da necessidade de sua construção. De fato, nosso chão, nos séculos XVIII e XIX, é profundamente marcado pela necessidade da construção e/ou manutenção de uma matriz. Os nomes que se sobressaem nesse período são os do padre João Francisco Martins e do coronel Antônio Pires Ferreira, generoso benfeitor da Matriz de São Bernardo.
Mas, é somente a partir do século XX, com a ousadia do Cônego Nestor em construir uma nova Matriz, um santuário, é que o eixo se desloca da igreja de pedra para a igreja viva, que sãos os fieis batizados, os paroquianos, ou numa linguagem colonial, os fregueses.
      O século XX é o século de ouro da Matriz. Período em que aconteceu uma verdadeira renovação pastoral a partir de alguns movimentos leigos, tais como o Apostolado da Oração e a Pia União das Filhas de Maria.
         Por uma questão de justiça, é preciso que se diga que essa renovação não é mérito unicamente do Cônego Nestor. Na verdade, ao chegar aqui ele encontrou um terreno já trabalhado pelo ilustre Monsenhor Gentil de Moura Viana, que tanto bem fez a esta paróquia nos poucos anos em que dela esteve à frente.
         Não há dúvida de que o período do pastoreio do Cônego Nestor se configura como o esplendor da Matriz. No entanto, isso não se deve somente a ele. É preciso que olhemos para outros personagens que foram também muito importantes, sobretudo mulheres, tais como, Otamires Pereira, Elizia Guimarães, Rosa Leal, Semírames Coelho Lima, Nilza Coelho Lima, Débora Correia Lima, Antonieta Andrade, Elisabete Almeida, e o senhor Edmundo Dantés, irmão do Padre Alexandre Pereira, filho de São Bernardo, que foi o vigário antecessor do Cônego Nestor.
       Após o fim trágico e lamentável do então cônego, a Matriz de São Bernardo foi confiada aos cuidados do Padre Maurício, que com muita maestria soube encaminhar a paróquia na linha de renovação proposta pelo Concílio Vaticano II, a partir de uma visão eclesial que considera a CEB’s como um caminho de verdadeira renovação pastoral e espiritual, culminando na ereção canônica do nosso templo como Santuário Diocesano.
     Nesse itinerário de três séculos, resumidamente ilustrados, ensejei destacar os elementos históricos que fomentam o ethos bernardense, isto é, nosso jeito de ser, nossa expressão sociocultural.
         Espero que este livro ajude a fomentar no coração de cada um de nós o terno amor pela nossa Matriz, nossa terrinha, a fim de que nunca seja silenciada a voz da alma que canta sem cessar, nos recônditos de nosso ser: “Glória a ti terra querida, cantamos com emoção, juramos por toda a vida, trazer-te no coração”.


Obrigado!